Os Mutantes: a apoteose da multiplicidade ou o extermínio da diferença?

Posted by Janaína Calaça on ago 10, 2008 in Destaques, Tv3 comments
A influência da mídia televisiva na construção de valores já está mais do que atestada e os folhetins televisivos ocupam um espaço considerável neste processo. As novelas, exibidas em horários diversos e por emissoras distintas, que já conhecem o seu poder mercadológico, são talvez a fatia da programação televisiva onde os valores sociais mais circulem filtrados, adaptados, distorcidos, reiventados, etc.

Ultimamente, uma novela em especial tem me chamado a atenção. O folhetim é exibido pela emissora Record e trata-se de um desdobramento da novela Caminhos do Coração. Refiro-me à novela Os Mutantes, que pode ser assistida a partir das 21 horas na citada emissora. Como o Kitnet Babel tem como foco cultura em geral, pensei em dedicar este primeiro post à discussão de alguns pontos interessantes, que a novela toca e que com certeza possui sua relevância na construção do imaginário coletivo.

Para quem nunca teve oportunidade de assistir a um capítulo da pitoresca novela, adianto, de maneira bem resumida, que o folhetim trata da luta dos humanos contra uma raça mutante, que começa a buscar seu espaço na terra. Até o que pude entender, os mutantes foram criados através de experiências genéticas em um laboratório e seriam usados como arma para a destruição dos humanos por uma raça de extraterrestres chamados Reptilianos. Já vi de tudo nesta novela: mutantes que se tele-transportam, que sofrem metamorfoses, que viram lobos, onças, aranhas, etc. A novela tem espaço também para vampiros, lobisomens, sereias e até dinossauros. Enfim, é uma verdadeira feijoada! Guardando os absurdos, há um ponto que gostaria de tratar neste artigo e, como disse, acredito ser relevante na novela, se pensarmos na importância que a televisão tem hoje na formação do imaginário coletivo. Há um dos personagens da trama, chamado Fredo, um policial que chefia as ações de um Departamento especial da polícia, o DEPECOM, voltado para o combate dos mutantes, que sintetiza a intolerância à diferença. Para o personagem, tudo que é diferente e considerado fora dos padrões de normalidade deve ser combatido e eliminado.

A nossa história foi construída em bases de intolerância e negação do outro. O Brasil, cenário onde se desenvolve a trama, foi palco de uma colonização brutal, em que os nativos foram exterminados e tiveram suas crenças violentadas em nome de uma pretensa superioridade e legitimidade cultural. Índios ontem, mutantes hoje nas novelas e a intolerância nas ruas. O discurso de Fredo é o discurso do colonizador que extermina aquilo que não compreende e, por não compreender, nega a legitimidade. O discurso de Fredo é também o discurso da intolerância coletiva, que nega e silencia aquilo que não é considerado como socialmente aceitável.

Em um país como o Brasil, de bases coloniais violentas, a história de intolerância permanece e se alastra e a novela, parte da cultura, tem caído como uma luva para tratar desta intolerância de maneira metafórica (claro!), mas óbvia. Os mutantes podem perfeitamente representar todos os que ocupam a margem do socialmente aceitável. Como citei anteriormente o discurso de Fredo sintetiza todos os discursos de negação à diferença, à pluralidade em nome de padronizações estúpidas e homogeneizantes. O Brasil, que todos cantam como o país colorido do oba-oba e da receptividade, é o país de bastidores onde o preconceito racial, a homofobia e a intolerância religiosa reinam. Quem pensa que o Brasil é o Carnaval, em que as barreiras sociais aparentemente se dissolvem, jogue uma água no rosto e cure a ressaca.

Enquanto assistimos a uma novela, baixamos a guarda, relaxamos e os valores, filtrados, vão se impregnando sem que nem mesmo percebamos a absorção de algumas “verdades”. Minha preocupação, diante da novela Os Mutantes, seja justamente a compreensão errônea da necessidade de respeito à diferença e que ocorra uma inversão de seu sentido. Diante da confusão toda, da luta entre mutantes bons e mutantes maus (o maniqueísmo tinha que reinar como sempre), como será que a população está absorvendo a discussão da novela? Será que estão entendendo que a convivência com a diferença é possível ou será que estão entendendo que o caminho é realmente exterminar o que não é padrão, em nome da segurança do socialmente adequado? Em um país em que os investimentos em educação cada vez são mais colocados à parte e que profissão do futuro é virar a Mulher Melancia, será que a compreensão da importância de respeito à multiplicidade será alcançada ou será que os telexpectadores estão interpretando a questão justamente pelo viés contrário? A novela então está contribuindo para atentar à necessidade de respeitar o outro ou está incitando à eliminação do que é diferente?

Acredito que a novela, como parte da cultura e tendo o alcance que tem, por se tratar de um programa veiculado em televisão aberta, tem sua relevância na discussão da intolerância e da necessidade de romper com esta tradição de negação, que tem bases antigas, bases coloniais. Os Mutantes servem como metáfora possível para tudo o que é marginalizado, mas a questão é saber se a novela está alcançando um ponto de conscientização da população sobre às questões referentes à intolerância ou está se perdendo nos embates e sendo interpretada como apologia ao extermínio? Como, em um país de educação capenga, em que as pessoas estão priorizando cada vez menos a formação de um senso crítico, a leitura deste folhetim está sendo feita? Os Mutantes estão ajudando a entender a multiplicidade ou estão apontando para um movimento de limpeza de raça? Ficam as questões então e as interrogações todas.

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3 comments

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  1. Ótimo artigo sobre uma novela polêmica, que eu defendo porém não assisto.

    Um parentesis: Eu não assisto simplesmente porque o formato diário de novela, escravizando o telespectador por vários meses está esgotado, pelo menos na minha opinião. Até mesmo as séries semanais estão enfrentando problemas, pois o telespectador moderno não gosta mais de ser escravo dos horários impostos pelas emissoras. O que começou com os horários alternativos das reprises na tv a cabo, continuou com a proliferação de séries em DVD e alcança seu auge nos downloads da internet. O espectador agora quer decider a que horas e que dia irá assistir o programa que deseja.

    Continuando, acho excelente a ousadia da Record de parar de imitar a Globo e investir em novelas diferentes. Os filmes existem em diversos gêneros: comédia, drama, policial, ficção, guerra… por que as novelas devem ser todas iguais?

    É verdade que a Globo às vezes tenta apresentar algo diferente, como a novela western Bang-Bang. Mas a reação ruidosa de quem prefere a mesmice assusta a emissora líder, que recua logo.

    Como a Record não é líder, não tem muito a perder e pode ousar mais. Mas não basta poder, precisa querer. E ela está querendo.
    A divulgação de posteres das suas novelas nas ruas, como se faz com filmes e séries, foi uma boa idéia. E a temática delas têm sido bem ousada: policial (aquela que se passava numa favela), ficção (com os mutantes e alienígenas) e ação (com a novela dos bombeiros heróicos).

    Quanto à questão que você coloca em seu texto, se o público está vendo uma defesa da diferença ou uma apologia ao genocídio, eu acredito que uma mesma mensagem é entendida de forma diferente por cada receptor. E se ela estiver sendo captada de forma negativa, seria culpa do emissor da mensagem, que não a deixou clara, ou do próprio receptor, que já tem uma idéia pré-concebida acimentada em sua cabeça? Porque a mensagem, se existe, é subliminar e sutil, escondida numa camada de ação e aventura. É possível que nem o próprio emissor a tenha percebido e identificado.

    Uma dica: se você gostou do tema central de preconceito e aceitação na roupagem “humanos tradicionais x mutantes”, leia umas graphic novels dos X-Men, especialmente se tiver o Professor Xavier e seu inimigo/melhor amigo Magneto.

  2. Olá, Antonio! :D

    Hoje manter uma novela no ar e aqueles que as acompanham diante da TV tornou-se um desafio dos grandes, porque, como você mesmo disse, as pessoas estão escolhendo ver o que querem no momento que têm disponível. Muita informação, muitas opções, tempo curto que não se estende. Comecei a acompanhar a novela por curiosidade e é interessante mesmo ver outros formatos dentro da cultura de massa. As novelas da Globo mudam os nomes dos personagens, os atores que carregam estes nomes, mas o formato é o mesmo, desgastado, cíclico, cheio de champanhe às 10 da manhã, enfim… Tédio.

    Entendo a questão da mensagem ser entendida de forma distinta por cada receptor, afinal cada indivíduo carrega consigo experiências diversas, parâmetros diversos, que vão ajudar a assimilar ou distorcer o que recebem como mensagem. O texto foi escrito para tocar em um ponto possível, mas não se fecha nesta questão. Foi muito mais uma cutucada! ;) Assim como filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite (que vi e gostei) são perigosos neste sentido, porque podem ser entendidos por um caminho totalmente torto, Os Mutantes também podem ser lidos e compreendidos de maneira torta, visto que grupos que apóiam o nazismo, por exemplo, são afeitos à idéia de extermínio da diferença em nome de uma “limpeza racial”. Infelizmente, não só o Brasil é regido pela intolerância à diferença, mas arrisco a dizer que trata-se de um contexto mundial, em que o desrespeito à diferença, em graus distintos obviamente, atravanca as relações humanas. E ainda dizem que vivemos o progresso…

    Abraços, Antonio!

    Jana.

  3. Engraçado num primeiro momento que vi a novela da Record na verdade como uma tentativa corajosa de instruir o público brasileiro cativo de novelas para um caminho bem distante daquilo que já estava proposto como norma pela Globo. Algo que de maneira escrachada também era seguida pela SBT numa tradução infantil e mineralizada das novelas mexicanas, porém pouco tinha visto deste discurso das diferenças e da segregação através da intolerância. É uma boa interpretação, que obviamente não está sendo percebida por essa grande massa. Não vou negar, também não o vi, mas tal fato se deve a um preconceito meu - e a uma sutil falta de tempo para tal - em relação às novelas em si.
    É engraçado como se dá a construção do ideário nacional. Somos Macunaíma em todos os sentidos. Promovemos a mais conhecida festa da carne, mas não deixamos de ser conservadores extremistas; buscamos idolatrar o comum, o suburbano, mas nossos valores se vertem para as classes minoritárias e financeiramente dominantes. Não vou negar, esse foi o seu texto mais lúcido que li aqui, sem exageros, preconceitos e excessos, muito comum àqueles de julgamento sofisticado, mas perdido na superficialidade do próprio julgamento. Muito bom texto.

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