Sobre traumas e sublimações
Posted by Nilovsky on ago 31, 2008 in Literatura • No commentsCerta vez escrevi um texto onde comento a tristeza que tomou a casa de meus pais, repleta de amigos e parentes na ocasião, quando assistimos a eliminação da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1986.
Em 86, eu era um moleque de 5 anos apaixonado por futebol. Filho de um Flamenguista dos mais peculiares, testemunhei o que minha ingenuidade juvenil só conseguiu julgar como traição quando aquele pênalti do Zico rebateu nas mãos do goleiro francês — é bem verdade que bastou ele surgir com a camisa do Flamengo meses mais tarde para que minha cisma contra um de meus grandes heróis se evaporasse. Contudo, minha relação com a bola, a marca do cal, goleiro e a balisa à frente, esta sim, nunca mais foi a mesma. Nos campeonatos de colégio ou nas peladinhas de rua, o temor de reviver aquela cena transcendia o âmbito do desporto ou da diversão com os amigos; só tendo encontrado alguma analogia anos mais tarde na aula de catecismo quando conheci a história de Abraão e seu filho Isaque.
À essa hora o leitor já se perguntou: mas o que o barbudo aà da foto tem a ver com isso?
Era o dia da mentira no ano de 2006, e na extinta Livraria Imperial acontecia um evento literário sobre a obra de Rubem Fonseca. O colega escritor Rodrigo Mello estava aqui pelo rio e enfim fomos apresentados pessoalmente. Após um papo sobre stoner rock mudamos a conversa, naturalmente, para a literatura. Como quem comenta um riff de guitarra de uma música ou uma cena de algum filme marcante, Rodrigo falou de um suposto livro de contos que um sujeito com nome de maquiagem escreveu. Como tenho certa obsessão por nomes, nem percebi que o simples ato de registrar aquele em minha cabeça seria motivo de uma obsessão ainda maior depois.
No trabalho, alguns meses mais tarde, matando o tempo na Internet ao invés de produzir e justificar meu ordenado, fiz o que todo mortal com o mÃnimo de curiosidade e um computador faria: digitei “Breece Pancake” no Google e mandei buscar. Imediatamente mudei o filtro para os resultados em português e fiquei surpreso quando vi que a primeira ocorrência era para um conto que o próprio Rodrigo Mello havia publicado no Cronópios há algum tempo atrás. Todas as outras não correspondiam a qualquer texto mencionando Pancake, e sim a ofertas de livros e maquiagem. Resolvi então por fazer a segunda coisa mais óbvia que um mortal curioso na frente de um PC faria: busquei por Breece Pancake na Wikipedia — desta vez em inglês. Realizando uma passada de olhos no verbete (à quela altura minha chefe já estava me olhando atravessado) duas coisas me chamaram a atenção; a primeira era o fato do autor ter se suicidado com quase a mesma idade que eu à época. A segunda ficou por conta de um comentário atribuÃdo a Kurt Vonnegut (curiosamente eu estava lendo — e achando genial — Café da Manhã dos Campeões) em que ele classificava Breece como “o autor mais sincero” que já havia lido.
Naquele mesmo dia, já em casa, só saà da frente do PC após ter à s mãos um impresso do conto The Honored Dead (”Respeito aos Mortos”, conforme tradução de José J. Veiga) que achei publicado num site amador dedicado a Breece e hospedado nas entranhas de uma universidade da VirgÃnia Ocidental. Li a história de dois amigos, uma mulher e o assombro de uma guerra, tomado de um afeto tal qual ocorria quando meu pai relatava os êxitos de Zico com a camisa do Flamengo (sim, meu pai não é muito afeito a super-heróis).
Não sei se sou capaz de contar quantas vezes reli aquelas folhas, e também não sei contar quantos sebos percorri até achar um exemplar na Estante Virtual; o que só veio a acontecer mais de um ano depois de ter ouvido falar no autor. Até aà eu já havia espalhado o boato do fantasma de Breece para diversos amigos e colegas, disseminando minha obsessão sem atentar para o fato de que seus outros contos poderiam ser uma bosta ou, pior ainda, por melhor que fossem não conseguissem despertar em meus recém-nomeados “seguidores” o mesmo que ocorreu comigo.
Sou mais um dos que acredita na teoria de Truman Capote, que afirma: quando Deus nos concede um dom, este vem acompanhado de um chicote. Portanto, posso dizer que cada contato que tinha com a memória de Pancake me atingia como um açoite. Ao mesmo tempo que ansiava por escrever (na época eu tinha uma novela em andamento), motivado pelo dÃnamo criativo contido naqueles poucos contos, senti que além de não me restar nada para dizer, não me restava nada para sentir. Nem preciso contar que minha novela foi pro lixo (tentei recuperar o arquivo, mas sem sucesso); todas as minhas anotações para futuros textos permaneceram nos mesmos blocos de papel — sequer realizei uma segunda olhada. Todo texto que começava a digitar no PC ou a escrever à mão se relegava ao limbo deste processo de purificação que se iniciara.
Por 6 meses não li um livro. Não escrevi uma linha.
Longe de mim pensar em suicÃdio (quem conhece minha história pode até duvidar) como fez Breece, e apesar do breve desatino, entendi essa coisa bonita que falam sobre a capacidade da arte modificar não só aquele que contempla a obra, como transforma, sublima, aquele que a produziu.
Sobre este efeito em Breece Pancake, não acredito que tenha produzido algo semelhante ao esvaziamento que tomou nosso Raduam Nassar, ou o mexicano Juan Rulfo. Tampouco o desvario que varreu Rimbaud (este comparo a um “Chris McCandless tresloucado”). Acredito que aquele sujeito que apreciava sinuca, carros e briga de galo, amava tanto a terra reverenciada em seus textos que se deixou consumir por esta a ponto dele próprio se tornar o fóssil que ele descreve em seu conto de abertura, um trilobite.
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