Humor, TV, blogs e reconfigurações
Posted by JanaÃna Calaça on set 6, 2008 in Tv • 1 commentA desconferência foi puxada por uma figurinha peculiar de 11 anos, que assina o blog Mundo Tosco: Gabriel Naressi. A proposta era citar quais os blogs de humor eram os preferidos dos participantes da desconferência e de lá as discussões surgiriam. Dentre os blogs que circularam na boca do povo, consigo lembrar dos Malvados, Dr. Pepper, Loser (do Pedro Ivo), Novo Mundo, etc. A discussão então foi direcionada para o humor produzido nos blogs, o humor já um tanto desgastado da TV e o que acontece com humoristas que iniciam suas carreiras de forma independente e depois, quando “descobertos” pelas tais mÃdias oficiais, algo acaba sendo perdido nesta transição.
O humor televisivo, salvo algumas poucas exceções, já atravessa anos de desgaste. As mesmas fórmulas, os mesmos personagens, roteiros que parecem estar em looping, bordões que provocam urticária depois de repetidos pela décima vez. O que fazer quando o humor, que é veiculado por uma das mais eficientes mÃdias de massa, testa a inteligência do telespectador e é configurado na maioria das vezes no formato do humor pastelão, de riso fácil e sem grandes surpresas? Chega uma hora que tudo é tão repetitivo, que você já grita “lá vem a torta”, antes mesmo de prepararem o glacê. Gabriel Naressi fechou a discussão com “desliga a tv e vá lê um blog”. Vou me apropriar rapidamente da frase, proferida pelo garoto, justamente para tocar na participação dos blogs hoje como alternativa para quem busca humor inteligente.
Dentre as várias questões que circularam na desconferência, algumas me chamaram a atenção. Esse humor televisivo pastelão tende a continuar ou a influência de outras mÃdias gradativamente vai sufocá-lo aos poucos? Acredito, infelizmente, que mesmo com a participação destas outras mÃdias, o humor pastelão presente em programas como A Praça é Nossa, Zorra Total, Faustão e programas como o do Tom Cavalcante vão continuar a ter espaço, possivelmente, na televisão e consequentemente no nosso imaginário. O humor pastelão é o tipo de humor que não necessita de grandes referências para ser compreendido. A piada é quase sempre óbvia e, pela sua repetição exaustiva, quem não entende na primeira vez que ouve, na segunda com certeza entenderá. Como reagiria então uma figura acostumada à s imitações de Silvio Santos e ao bordão “Olha a faca!!!”, que acredita serem estas as únicas possibilidades de provocação do riso, diante de uma tirinha dos Malvados?
A liberdade editorial que os blogs proporcionam tem revelado figuras interessantes em vários campos de interesse, inclusive no humor. Uma fatia considerável de blogueiros, que se dedica a trabalhar com esta linha, mesmo que esta não tenha sido seu foco inicial, transforma acontecimentos cotidianos, tabus culturais, tudo que estiver à mão em situações que acabam por provocar o riso. Este riso, no entanto, chega com o conhecimento prévio dos referenciais, das situações envolvidas, de contextos próprios, etc. Para extrair de uma frase ou de uma tirinha o riso do leitor, ele tem que estar em sintonia com uma série de áreas do saber e entender um pouco do mundo maravilhoso da ironia, o que acaba por restringir bastante o público atraÃdo por este tipo especÃfico de humor.
Os representantes de emissoras de televisão têm interesse em manter o humor fácil presente em sua programação seja em programas voltados para tal, seja nos núcleos cômicos das novelas. O humor pastelão é o humor que atrai a massa, atingida por uma pobreza cultural que só tende a ser potencializada ao longo dos anos. No entanto, os mesmos representantes das emissoras de TV também vêm no consumidor do humor “mais refinado” uma fatia de mercado a ser abocanhada. Como fazer então para atrair esta fatia?
No meio da desconferência alguém citou a perda de parte da irreverência de projetos independentes depois que foram abocanhados por grandes emissoras ou projetos ligados a estas. Surgiu, como exemplo, o Jacaré Banguela, que hoje faz parte da Globo.com e que teve que segurar mais a lÃngua para unir o prazer de produzir humor e conseguir ao mesmo tempo um meio de sustento. Há como manter a irreverência quando há limites bem delimitados sobre o que deve ou não ser dito? Vemos então a problemática que cerca o humor dançando um tango argentino em nossa frente. Ao que parece o humor pastelão continuará ocupando o seu espaço, visto que há um público que o consome e que é alimentado exaustivamente para tal. Para aqueles que não aguentam mais ouvir bordões e imitações enfadonhas, os blogs de humor aparecem como uma alternativa para as tediosas tardes e noites dos fins de semana, em que Zorra Total e Fausto Silva fazem a festa. Mas o que fazer quando estes blogs acabam sendo incorporados por essas mesmas emissoras ou por projetos das mesmas? Como fica então o riso? Comedido, meia boca? Acredito que não. Como também citaram na desconferência sobre humor no BlogCamp, a dinâmica própria da vida faz com que sangue novo sempre apareça e que tenhamos um pretexto para mostrarmos um pouco mais os nossos dentes. Sempre surgirá alguém que reabasteça os copos. De humor pastelão à irreverência do humor inteligente, acredito que os lugares sempre existirão e que há interesse na manutenção de certos modelos por uns e a vontade de trazer algo diferente por outros. Sempre existirão esses interesses conflitantes ou até aqueles que dividem o mesmo espaço e querem tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Mas então se você é da turma do Zorra Total… Larga o blog e vá assistir ao Zorra Total! Se você, no entanto, já se descobriu do outro lado da força, ah… Desliga a Tv, como disse Gabriel, e vá lê um blog! Seu dedo é seu guia. Ligue a tv ou ligue o pc!
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Texto perfeito,
na dose certa,
de um dedilhado conforme e justo. Mas viso ressaltar que talvez tenham esquecido do Blog Cocadaboa - que ativamente foi alvo de grandes celebridades por causa do humor rasgado e crÃtico, de alvo especÃfico e firme de suas convicções.