Ensaio sobre a cegueira: Em terra de cegos, quem enxerga é louco?

Posted by Janaína Calaça on out 13, 2008 in Cinema, Destaques1 comment
Recentemente, tive a oportunidade de assistir ao filme Ensaio sobre a Cegueira, baseado no romance homônimo do escritor português José Saramago.

A obra de Saramago sempre foi pontuada pelo inusitado e pelo polêmico e polêmica é o que acompanha a adaptação ao cinema do romance português pelo cineasta Fernando Meirelles. A crítica divide-se em relação ao filme, manifestações por parte de grupos de deficientes visuais ganham visibilidade e no fim das contas me pergunto se a cegueira retratada no filme metaforicamente limita-se à duração da película ou é cotidiana, dia a dia, parte da nossa vivência?

O mito da Caverna, de Platão, parece ter sido atualizado no romance de Saramago. Resumidamente, o mito gira em torno dos personagens que viviam em uma caverna e acreditavam que as sombras projetadas nas paredes eram a realidade possível de ser captada pelos sentidos, até que um dos personagens sai da caverna e vê, depois da dolorosa experiência de ter seus olhos machucados pelo excesso de luz, depois de tanto tempo exposto à escuridão, outra possibilidade de realidade, que não é a projeção das sombras nas paredes da caverna. Quando este personagem retorna e conta aos outros, que ainda vivem na caverna, que o que vêem é apenas projeção do real, é considerado louco.

Em o Ensaio sobre a Cegueira, a personagem vivida pela atriz Juliane Moore, na adaptação do romance à narrativa fílmica, é a única a não ser atingida pela cegueira branca, que acomete a todos. A personagem de Juliane responsabiliza-se por guiar os que ficaram cegos e diante de seus olhos um processo de desumanização plasma-se, pontuando a realidade diante da aparente civilidade em que viviam os personagens antes da cegueira.

A personagem vivida por Juliane é a única que vê além das sombras, que antes todos acreditavam ser a realidade. Em uma situação limite, em que todos aparentemente deveriam partilhar da mesma dor e das mesmas dificuldades, personagens, como o vivido pelo ator Gael García, apontam para possíveis comportamentos vindos do suposto ser humano civilizado, que negam completamente a ilusão da civilidade. O personagem de Gael apropria-se da comida regrada no hospital, em que os cegos foram confinados em quarentena, e a mesma se torna objeto de poder. Em troca dela, o personagem, que se intitula o Rei da Ala 3, apropria-se dos bens dos vitimados pela cegueira e depois, de não restar mais bens para servirem de moeda, as mulheres das alas acabam sendo também reduzidas à condição de coisa e são obrigadas a se prostituir em troca de alimento para o grupo.

O Ensaio sobre a cegueira, assim como o mito de Platão, aponta para a cegueira coletiva em que sociedades diversas estão imersas. A cegueira branca, o excesso de luz, de conhecimento, faz o homem desconhecer o seu próprio limite como ser humano. A civilidade aparente dura apenas o tempo suficiente para que cada um, em nome da sobrevivência, rompa o limite do outro e caia em uma suposta irracionalidade, em que valores, antes tão aparentemente sólidos, dissolvam-se rapidamente.

Pessoas levantando durante o filme… A crítica, parte dela, tecendo comentários absurdos diante de uma das adaptações fílmicas mais lúcidas, que tive oportunidade de assistir ultimamente… E eu continuo acreditando que a cegueira extrapolou o limite das páginas do romance de Saramago e das telas dos cinemas. Não seria cegueira isto que acomete aqueles que se negam a confrontar o seu próprio limite? O absurdo está na crueza de uma realidade possível ou na insistência de viver uma realidade aparentemente polida, em que todos asseguram a firmeza dos seus valores, mesmo quando se sentem ameaçados? A cegueira, sem dúvidas, segue os que insistem em olhar para as paredes da caverna e abrirem suas bocas, cheias de dentes, para apontar como única realidade possível aquilo que é sombra, aquilo que é apenas projeção.

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1 comment

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  1. Oi Janaína,
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    beijos
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    Calixto

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